Deixe-me adivinhar sua situação: você ou bem outubro, novembro e dezembro. Em fevereiro patinou, em março, desengrenou de vez.
O caos está instalado: barro até o cotovelo, comida acabando, parece que são muitas as vacas com problema de casco. O preço da arroba está tentador e você coçando a cabeça numa dúvida com total fundamento: “Largo esse negócio? Continuo nessa luta?”
Vou falar hoje sob dois olhares: Um, do ponto de vista fisiológico e outro, do ponto de vista do negócio.
Fisiologicamente, as vacas vão diminuindo a ingestão de matéria seca aos poucos. Uma razão é o calor que diminui o apetite por si só, depois o barro, que vai se acumulando dificultando o o a comida, de carona vem o desafio com casco que vai piorando e as vacas que já estão comendo pouco, acabam se esforçando menos ainda, pois se torna penoso chegar até o cocho.
Esse momento é fevereiro e março em boa parte das fazendas. É o momento em que historicamente o preço do leite está baixo e o volume entregue também está baixo em comparação com o meio do ano.
O volume está relacionado a concentração de partos, e como esses partos aconteceram nos últimos meses. Vacas que ficam sob melhores condições de conforto no período seco produzem mais, apresentam menos doenças ao parto (como retenção de placenta, metrite, cetose) e é exatamente agora que você está vendo o prejuízo dessas vacas que pariram no verão. Aquelas que tiveram parto em janeiro e deveriam estar dando pico de produção, estão muito aquém do potencial.
A reprodução também vem se arrastando desde que esquentou em outubro. A vantagem é que as que estavam em melhores condições emprenharam, agora sobraram as “buchas”, que ou você considera descarte ou insiste mais um pouco. O silo também está no fim e você com fé em Deus conseguiu acertar nesse silo mais do que ano ado, mas provavelmente está fazendo a transição de silos.
Enfim, é um momento de cansaço, mas de esperança. Esperança que os resultados melhorem, que o preço do leite suba, que a temperatura caia. Isso é verdadeiro porque se trata de um ciclo, que acontece mais ou menos acentuado todos os anos. Vai chegar o período de seca e as coisas vão melhorar, mas o ciclo se repetirá.
O que temos para te falar sobre como superar esse ciclo? Duas coisas: melhore a vida das vacas e repense o negócio.
Melhorar a vida da vaca é lembrar que, se a ingestão já cai nesse período, tudo que fizermos para que o cocho seja mais convidativo é importante. Como área de cocho, sombreamento do cocho e piquetes, qualidade da comida, limpeza do barro, resfriamento pré-ordenha, etc. Tudo que pudermos fazer para que essas vacas comam é importante para o leite não cair nesse momento.
Lembre-se: o leite cai rápido e demora muito a subir novamente. Então, não deixe cair, segure o máximo possível.
Um ponto muito negligenciado nas fazendas são os corredores. As vacas am por eles pelo menos 4 vezes ao dia e a caminhada é mais um esforço. Tudo que você puder pensar para deixar os corredores mais secos e com menos pedras vai ser muito bem-vindo, porque além do desafio do barro se tivermos trauma nos cascos com certeza o número de vacas mancando será muito grande.
Outro ponto, é que o seguro morreu de velho. Então, quando estiver se programando para enfrentar mais um verão, não considere que vai chover pouco. Pelo contrário, se prepare para muita chuva porque, se chover pouco, você está calçado. Lembrem que o clima está cada vez mais incerto.
Outro ponto de vista é pensando no negócio. É crucial é repensar como as coisas são feitas na fazenda, desde a projeção de rebanho, plano financeiro, preparação da equipe para esse momento etc.
Tente pensar no ano ado. O que você fez para preparar a fazenda para o período que vinha? Você preparou sua equipe de trato? Pensou em alternativas para locais de alimentação e limpeza desses lugares? Preparou a sala de resfriamento para amenizar o estresse térmico? Cobriu ou melhorou a condição dos cochos? Não? Vou cair no maior clichê do mundo: “Fazer a mesma coisa e esperar resultado diferente é sinal de loucura” (frase de Freud e não de Einstein ok?)
O financeiro da fazenda tem importância nessa hora? Como está seu caixa? Lembre-se que qualquer produto tem sazonalidade de preço, custo e tudo mais. Não estamos negando o peso que o preço de leite tem e que o valor dos insumos está fora de base, mas a grande maioria das fazendas não conta com essa baixa e começa a descartar vacas que serão necessárias para aumentar o faturamento nos próximos meses.
Seja prudente nessa hora, faça cuidadosamente um planejamento financeiro, contrate uma consultoria se for o caso, mas não caia na tentação de dilapidar seu rebanho para capitalizar a fazenda a não ser que isso faça parte da estratégia e esteja no plano.
Um bom começo é analisar cuidadosamente todo o histórico de anos anteriores e se programar para o ano que virá. O verão de 2022 começa agora com a entrada desse inverno.
Para fechar o assunto, uma pergunta: e a gestão como anda? Lembre-se que gestão não é apenas o planejamento financeiro que citamos acima. O financeiro faz parte, mas gestão é o jeito que as coisas são feitas todos os dias.
A organização, treinamento, acompanhamento das pessoas, cada processo, cada tarefa, qual tecnologia utilizar em qual momento, como segurar o caixa, quais indicadores utilizar, tudo isso faz parte da gestão. Reflita profundamente nisso!
O leite está evoluindo com uma rapidez gigantesca. Não há mais espaço para fazendas que fazem tudo como antigamente. Hoje, a necessidade é que o produtor se porte como empresário. Não da boca para fora, mas partindo de uma postura de responsabilidade e conhecimento sobre o negócio.
O verão de 2022 começa agora! Não repita os mesmos erros.
Comente abaixo se isso faz sentido. Mande esse texto para aquele amigo que precisa ler isso. De resto, apenas um forte abraço.
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