Características do capim-gordura
O capim-gordura (Melinis minutiflora), também conhecido por capim-meloso, capim-melado, capim-catingueiro, capim-catingudo, capim-cabelo-de-negro e capim-de-cheiro, possui diversas variedades ou cultivares: roxo (o mais cultivado e nutritivo), branco, francano, etc.
Tem sua origem na África, tendo chegado ao Brasil através dos navios negreiros, pois seria usado como “cama” para os escravos, tendo se espalhado rapidamente nos biomas brasileiros. Foi muito utilizado como forrageira em pastagens, especialmente no Brasil Central, até meados da década de 1970, tanto na pecuária de corte, quanto na leiteira.
É um capim perene e cespitoso adaptado a baixa fertilidade do solo, resistente a pragas e bastante agressivo, considerado invasor em muitos ecossistemas brasileiros. Não tolera geada e nem seca excessiva.
Se adaptou muito bem aos terrenos montanhosos do vale do Paraíba e Zona da Mata Mineira, tendo ali predominado até a década de 1980, quando se iniciou a sua substituição por capins mais produtivos, porém mais fracos nutricionalmente e mais favoráveis ao carrapato, como as braquiárias.
Como plantar o capim-gordura?
Seu plantio é feito por meio de estalões ou sementes, a mais comum, pois produz sementes em grande quantidade, de boa germinação e quase nenhuma dormência.
Por ter bom valor nutritivo e ser muito apreciado pelos animais, precisa ser bem manejado, pois, devido à elevação precoce do seu meristema apical (a parte da planta responsável por seu crescimento), pode ser facilmente eliminado durante o pastejo, fator que contribui para a sua exclusão do ambiente.
Trabalho de pesquisa (Paula et al., 1967) sinalizou que cortes próximos ao solo (2 cm de altura), ao fim de onze meses, provocaram injúrias nas plantas que favoreceram a infestação por ervas daninhas, ao o que cortes efetuados com 12 cm de altura não causaram injúrias às plantas.
O valor nutritivo do capim-gordura depende de condições ambientais e manejo, podendo atingir 13,32% e 61,27% de proteína bruta e de digestibilidade nos primeiros 30 dias de crescimento, respectivamente, com base na matéria seca (Valadares Filho et al., 2006).
Capim-gordura e controle de carrapatos
Ao ar a mão pela planta, sente-se que o capim “mela” a mão, pois pelos glandulares nas folhas e talos liberam um óleo com um odor especifico, que possui um efeito repelente sobre o carrapato-do-boi.
Essa propriedade repelente e acaricida é conhecida há muitos anos (Rosenfeld 1925; Jesus, 1934), e vários trabalhos científicos já demonstraram esse efeito acaricida que o capim gordura possui sobre várias espécies de carrapatos (ex: Rhipicephalus microplus, Amblyomma cajennense) em experimentos em pequenas áreas no pasto, sem a presença de animais (Thompson et al., 1978; Hernández et al., 1987; Mwangi et al., 1995; Fernández et al., 2004; Iriarte del Hoyo et al., 2013), em vasos (Farias et al., 1986), ou com animais, no campo (Hernández et al., 1987; Aycardi et al., 1984).
Recentemente, nossa equipe também constatou este efeito de repelência que o capim-gordura exerce em relação a larvas do carrapato, tendo registrado este fato demonstrado em um Dia de Campo sobre Controle Seletivo do Carrapato que ocorreu no Instituto de Zootecnia em Nova Odessa, SP.
Capim-gordura e controle de vermes
Ao que tudo indica, o capim também tem propriedades vermicidas. Álvarez (2013) verificou que uma infusão de 5% de chá de capim-gordura (infundir 50 g de capim em 1 L de água fervida, tapar e deixar esfriar naturalmente, por cerca de 10 minutos, dando 15 mL dessa infusão, uma única vez), provocou diminuição significativa (média de 44%) no número de ovos nas fezes de ovinos que receberam este chá.
No final dos anos 1990, o pesquisador do Centro Nacional de Gado de Leite, Hélio Prates, estudou as propriedades acaricidas desse capim e seus componentes, chegando à conclusão que a volatilização do óleo do capim-gordura é letal para larvas do carrapato (Prates et al., 1993; Prates, 1998), e até para outros insetos (Prates et al., 2002). Esse óleo possui, entre outros compostos, 1,8-cineol, uma substância presente em muitos óleos essenciais, incluindo o Eucalyptus globulus, cujo óleo essencial é muito usado na indústria alimentícia, farmacêutica e de limpeza.
Leandro Rodrigues, farmacêutico que fez sua tese no Instituto de Zootecnia (Rodrigues, 2018), comprovou que a volatilização, tanto do óleo essencial de Eucalyptus glóbulus, como de seu componente principal, 1,8-cineol, possui efeito acaricida sobre as larvas, e prejudica a postura dos ovos do carrapato.
Isto aconteceu sem necessidade de haver contato direto do carrapato com os óleos essenciais, apenas com os compostos voláteis. Tanto o mecanismo de penetração desses óleos aromáticos, como a sua ação no carrapato ainda precisam ser melhor estudados, mas já se conhece a ação nefasta que alguns óleos essenciais (ex: timol, carvacrol) fazem sobre tecidos essenciais à sobrevivência dos carrapatos, tais como singlânglio (sistema nervoso do carrapato), glândulas salivares (Matos et al., 2018), e aparelho reprodutor das fêmeas (Matos et al., 2014).
Além do efeito químico dos compostos liberados pelo capim gordura sobre o carrapato, há também o efeito físico, pois tanto os pelos como o próprio óleo liberado nos pelos da planta, dificultam a subida da larva, aprisionando-a, e, muitas vezes, imobilizando e matando (Farias et al., 1986).
Hoje em dia está muito complicado o controle do carrapato por causa da resistência que os parasitas adquirem aos produtos químicos que estão no mercado. Por isso, ter na propriedade um capim que tem propriedades acaricidas é um grande negócio!
Além disso, por ser um capim de elevado valor nutritivo, vacas que consomem o capim-gordura produzem bastante leite e bezerros ganham peso. Seu único inconveniente é que os animais o consomem com voracidade, o que pode diminuir sua presença na pastagem, aumentando a frequência de plantas invasoras, de modo que este capim deve ser manejado com cuidado, em sistema de rotação de pastagem, deixando-o com uma altura de saída mínima do piquete entre 10 e 12 cm.
No livro “Carrapaticidas: toxicologia, resíduos e alternativas”, lançado recentemente pela Secretaria de Agricultura, por meio do Instituto de Zootecnia, tem um capítulo, “Controle do carrapato em uma fazenda de leite orgânico”, no qual a médica veterinária Fabiola Fernandes Schwartz, que trabalha com agricultura orgânica, apresenta uma receita caseira feita com o capim-gordura para controle do carrapato-do-boi por aspersão no animal. Este e outros capítulos que falam sobre o controle alternativo do carrapato podem ser ados e o livro baixado gratuitamente ando o site www.iz.sp.gov.br, em publicações/ livros.
Os especialistas em capim poderão dizer que o capim-gordura é de difícil manejo, mas, na atual situação de precariedade da ação dos carrapaticidas convencionais, com certeza vale a pena investir neste capim!
Autores do artigo:
Cecília José Veríssimo, Amanda de Oliveira Bento, Leandro Rodrigues, Waldssimiler Teixera de Mattos, do Instituto de Zootecnia (IZ) de Nova Odessa/SP
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